Mulheres e maconha: entenda essa relação milenar

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Da biologia da cannabis aos negócios, o sexo feminino está diretamente envolvido com diversas questões e benefícios da planta

A relação entre as mulheres e maconha não á algo trívial de se discutir, isso porque envolve uma série de outros tópicos que são polêmicos por si só. A verdade é que não podemos negar que a planta da cannabis e o feminino (seja o sexo, ou como movimento), possuem mais coisas em comum do que você imagina. Inclusive, hoje, as mulheres representam a maior parte do mercado da cannabis medicinal.

Ainda que o cenário canábico esteja mudando, o consumo de maconha ainda é entendido como mais alto entre homens do que entre as mulheres e, consequentemente, é erroneamente mais associadoa ao sexo masculino. No entanto, a relação entre a planta e o sexo feminino é extremamente potente, sendo, inclusive, transformadora nos âmbitos da saúde, sexual e profissional. 

Essa conexão vem desde a biologia da maconha. A Cannabis sativa, nome científico da planta que engloba todas as suas variações, tem espécies de estruturas femininas e masculinas, com características muito diferentes entre si. Enquanto a masculina tem sacos de pólen para formar sementes, a feminina é responsável pela produção dos buds (flores ou frutos, em português) tão preciosos para a humanidade e a indústria, com seus canabinoides, terpenos, flavonoides e tantas outras propriedades que propiciam o uso medicinal e recreativo da erva.  

Para além da biologia, atualmente as mulheres possuem uma representatividade grande no mercado da cannabis medicinal, sendo inclusive a maior parcela entre os pacientes e tendo uma grande representatividade na liderança das empresas desse meio.  

A maior parcela de pacientes de cannabis medicinal é composta por mulheres 

O Brasil é composto por 51,1% de mulheres, segundo dados da PNAD contínua (Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios Contínua) 2021, e no mercado da cannabis medicinal essa tendência é ainda mais acentuada. A Kaya Mind tem um forte trabalho junto à órgãos governamentais, em especial com a Anvisa, para o tratamento de dados do mercado da cannabis medicinal e a compreensão de como está o andamento desse novo setor que vem sendo criado no Brasil.  

mulheres e cannabis

Em consulta à agência, nossos analistas obtiveram acesso aos dados referentes à demografia dos pacientes que possuem autorização para a importação de produtos a base de cannabis e identificaram que 58% dos pacientes são mulheres. 

Essa fatia do mercado é alta, são mais de 79 mil novas pessoas em 2022 com autorização para a importação,  e mais de 45 mil são mulheres. A representatividade de cada sexo é um índice importante de se destacar, pois indica uma tendência dentro desse mercado e que hoje aponta que as mulheres tem esse espaço evidente quando falamos da compra de produtos à base de cannabis.

mulheres e maconha
Porcentagem demográfica dos pacientes com autorização para importação de produtos à base de cannabis no Brasil

Como podemos ver na tabela acima, as regiões que possuem a maior presença de mulheres são o Centro-Oeste, Norte e Nordeste, que hoje não são as mais representativas no número de solicitações, porém quando somadas são expressivas o suficiente para garantir a média alta.  

Influência da maconha no sistema reprodutivo da mulher 

A planta também tem um vínculo importante com as mulheres quando se diz respeito à saúde física, mental e sexual. O sistema endocanabinoide, que visa garantir o equilíbrio do organismo humano, é composto por neurotransmissores endógenos, chamados de endocanabinoides, presentes em diversas regiões do corpo, inclusive no sistema reprodutivo feminino. Eles podem ser encontrados no útero, nas trompas, nos ovários, na vagina e na vulva, influenciando as sensações, o controle de inflamações, secreções hormonais, bem como os prazeres e as dores.  

O fato da maconha ter seus próprios fitocanabinoides ou canabinoides (THC, CBD e mais de 100 outros), que atuam semelhantemente aos endocanabinoides, sugere o seu efeito no sistema reprodutivo feminino. Ainda que existam poucos estudos a respeito do assunto, sabe-se que a cannabis era utilizada para tratar diversas condições femininas antes do proibicionismo. Médicos do século XIX publicaram artigos sobre o tratamento de sangramentos menstruais intensos por meio da cannabis; um texto da Pérsia antiga (atual Irã), no século IX, mencionou o uso da planta em relação a dores uterinas, prevenção de abortos espontâneos e à preservação de fetos nos ventres maternos; em 1862, um outro profissional de medicina alegou que a maconha ajudava positivamente as crises de vôomito durante a gravidez; diversos documentos antigos, desde 1500 a.C., associaram o uso da erva como auxílio nos partos; e relatos apontam que até a rainha Vitória, da Inglaterra, usava a maconha como alívio para suas dores menstruais.  

Pesquisas mais recentes buscam compreender com mais precisão a relação entre a cannabis e a gestação e a amamentação. Enquanto algumas apontam possíveis riscos do uso, outras demonstram que poderia haver um consumo seguro e, inclusive, um alívio de sintomas da gestação, como o enjoo matinal.  

Como a cannabis afeta sexo e bem-estar 

Na maioria das situações, o consumo de cannabis durante a gravidez não é recomendado, mas as evoluções de pesquisas e casos específicos mostram que o uso é efetivo para tratar cólicas, TPM, endometriose, menopausa e outras questões. Um estudo, publicado em 2019, analisou 484 mulheres australianas com endometriose e, destas, 76% relataram usar técnicas de automedicação. A maconha, utilizada por 13% das entrevistadas, se mostrou a mais eficaz no controle da dor. Afinal, o CBD age na mesma enzima que o ibuprofeno, opióide frequentemente usado para aliviar cólicas, e, em conjunto com o THC, diminui o processo inflamatório e a intensidade da dor.  

mulheres de cannabis

Além do uso para problemas menstruais, a erva alivia dores, tensões e a ansiedade durante as relações sexuais. Uma pesquisa, desta vez realizada pela Universidade de Stanford, nos Estados Unidos, reuniu 452 mulheres que tinham de responder um questionário sobre desejo, excitação, lubrificação, orgasmo, satisfação e dor. O resultado mostrou que as participantes que usavam maconha diariamente tiveram uma pontuação maior que as demais, ou seja, eram mais satisfeitas sexualmente.  

Há também indícios de que a planta age como um afrodisíaco. De acordo com um breve documento divulgado pela Reuters, 1/3 das mulheres nos EUA já usaram cannabis antes do sexo e reportaram um aumento de desejo sexual, luxúria e a melhora dos orgasmos. 

Em relação à saúde mental, um estudo apontou que a maconha, em doses pequenas, pode diminuir os sintomas da depressão, tornando-se um antidepressivo efetivo por produzir serotonina. Atualmente, mais de 264 milhões de pessoas sofrem da doença no mundo, sendo as mulheres mais impactadas que os homens. Isso porque o sexo feminino tem um risco duas vezes maior de desenvolver depressão, segundo a Universidade da Califórnia, no país estadunidense. 

Mulheres ocupam 1/3 dos cargos de liderança no meio canábico  

Saindo do âmbito da saúde, pode-se observar uma mudança positiva na vida profissional das mulheres que fazem o uso de maconha. Com o avanço das regulamentações acerca da planta e, por consequência, de um crescimento mundial da indústria canábica, novas oportunidades no mercado de trabalho vêm surgindo. Conforme uma reportagem da CNBC, canal norte-americano dedicado às notícias de negócios, 77.000 novos empregos surgiram no setor em 2020. Destes, a maioria das vagas foi ocupada por mulheres – em 2019, 39% eram desempenhados por pessoas do sexo feminino e, em 2020, esse número subiu para 42%. Além disso, outro dado sugere uma informação importante: quase metade dos trabalhadores do setor ocuparam o cargo por no máximo um ano, o que aumenta a chance de mulheres passarem a exercer cargos de liderança com mais frequência.

E isso já vem acontecendo. O relatório de 2017 da Marijuana Business Daily, “Mulheres e Minorias na Indústria da Cannabis”, mostrou que, no mercado da cannabis nos Estados Unidos, quase 37% da liderança é feminina, o que corresponde a 1/3 dos executivos de empresas da área. Por outro lado, a média para todos os negócios no país é de apenas 21%.  

Segundo reportagem na Forbes, em 2022 esse número havia caído para 22%, uma queda brusca e que se assemelha a média nacional, que não é tão representatativa. Apesar dessa diminuição, não são poucos os grupos que vêm surgindo, em especial no mercado norte americano, em apoio e para fomento do networking exclusivo para mulheres. A The Acview Group, uma empresa de dados dos EUA, por exemplo, possuií uma Rede de Inclusão Feminina, que apoia empresas que possuem mulheres em cargos de liderança. 

Os desafios e conquisas das mulheres no mercado da maconha 

Um estudo mais recente, conduzido pela pesquisadora Jennifer Whetzel, fundadora da empresa LadyJane Branding, falou com mais de 1,500 profissionais mulheres desse setor e lançou o seu primeiro relatório, chamado de WICS (sigla em inglês para Estudo de Mulheres na Cannabis), onde identificou algumas tendências do comportamento dessas profissionais dentro do setor.  

Diante de tantas barreiras, alguns pontos são facilmente identificáveis dentro do estudo, em especial a resiliência e as conquistas das mulheres na indústria da cannabis. Quase metade da participantes é proprietária, gerente e faz-tudo dos seus negócios sem nenhum outro funcionário. Além disso, mais de dois terços procuraram emprego no setor da cannabis para aplicar habilidades adquiridas em outros mercados, pois tinham uma paixão em trabalhar com o assunto.  

maconha e mulheres

No mundo, as mulheres representam a grande maioria das compras de consumo em geral e controlam mais de US$ 20 trilhões do poder de compra do mundo, mas nem sempre vemos essa mesma força quando falamos da presença de mulheres em cargos de poder, uma perda grande não apenas no mercado da maconha, mas para todos os setores. São muitos os estudos que já comprovaram que empresas lideradas por mulheres se comportam diferentes daquelas lideradas por homens, criam mais oportunidades e, por vezes, crescem em taxas mais altas.  

Isso não é diferente no setor da cannabis, o Arcview Group e a National Cannabis Industry Association (NCIA) divulgaram um relatório em 2021 que exemplificou ainda mais o valor da participação e liderança das mulheres na indústria da cannabis. As empresas com mais mulheres na liderança são mais lucrativas, mais competitivas e refletem melhor o mercado.  

A verdade é que, as startups lideradas por mulheres produzem mais do que o dobro da receita para cada dólar investido quando comparadas às contrapartes lideradas por homens. As descobertas do relatório Arcview e NCIA mostram a necessidade de uma análise mais profunda, como a produzida no Women in Cannabis Study. Você pode ter acesso ao relatório completo aqui

Mas as profissionais da indústria da maconha não são apenas empreendedoras. Há cientistas, pesquisadoras, jornalistas, analistas, médicas, designers e tantas outras que acreditam no potencial da planta e auxiliam no desenvolvimento do setor ao redor do mundo. Nisso, a cannabis de estrutura feminina e as mulheres também estão conectadas: ambas são imprescindíveis para o mercado da planta que se conhece hoje.  

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