O que é IMAO e qual sua relação com a cannabis?

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Os IMAOs são um tipo de medicamento usado no tratamento de depressão e outras condições. Mas alguns cuidados devem ser tomados durante o tratamento.

“IMAO” é a sigla para Inibidores da Monoamina Oxidase, que são uma classe de medicamentos utilizados no tratamento da depressão, doença de Parkinson, e outras condições. Os IMAOs são conhecidos por sua eficácia no alívio de diversos sintomas, mas também requerem precauções e restrições alimentares devido a possíveis interações perigosas com certos alimentos e medicamentos. Além disso, muita gente se pergunta se é arriscado tomar esse tipo de medicação e fazer o uso de cannabis. Para responder essa pergunta, é necessário entender como esses medicamentos atuam no nosso organismo e quais as condições de uso.

Para simplificar o assunto, vamos explicar o que é a Monoamina Oxidase, e o que são as aminas Dopamina, Serotonina e Noradrenalina, e finalmente, como os IMAOs atuam.

O que é Monoamina Oxidase (MAO)?

A MAO é uma enzima localizada na membrana externa da mitocôndria de células neuronais, glias, tecidos periféricos do nosso corpo, como fígado, rins e intestino, além de outras células. As MAOs são derivadas do aminoácido tirosina, uma substância que também é encontrada em queijos, vinhos e outros alimentos fermentados.

imao o que é
IMAO. Fonte: Passei Direto

No sistema nervoso central, a MAO é responsável por regular a concentração de algumas substâncias químicas que são liberadas por neurônios, e interagem com estruturas como dopamina, serotonina e noradrenalina, diminuindo a concentração dessas substâncias na fenda sináptica (o espacinho entre os neurônios). Já nas áreas periféricas, elas são responsáveis por oxidar substâncias presentes no sangue e impedir que elas entrem na circulação sanguínea. Essa interação entre a MAO e os neurotransmissores Dopamina, Serotonina e Noradrenalina faz com que a enzima seja eficiente no combate de sintomas de depressão e transtornos de humor.

Mas o que são e como atuam a Dopamina, Serotonina e Noradrenalina?

As aminas dopamina, serotonina e noradrenalina são neurotransmissores que atuam no sistema nervoso central e estão envolvidos em diversas funções, como regulação do humor, motivação, recompensa, felicidade e prazer. Todos os neurotransmissores funcionam como mensageiros químicos, pois transportam, estimulam e equilibram os sinais entre neurônios, células nervosas e outras células do corpo.

Após a liberação, o neurotransmissor atravessa a lacuna entre as células e se liga a outro neurônio, estimulando ou inibindo o neurônio receptor, de acordo com a sua característica. Além das sensações, eles podem afetar uma ampla variedade de funções físicas, incluindo frequência cardíaca, sono e apetite. Quando se trata de transtornos psiquiátricos, esses neurotransmissores têm um papel preponderante, vamos entender as razões mais adiante.

Os que são os Inibidores de Monoamina Oxidase (iMAO)?

Os inibidores da monoamina oxidase, os iMAOs, são as primeiras substâncias a serem usadas como antidepressivos, há várias décadas. Seus principais representantes eram a hidrazina, a fenelzina e a tranilcipromina. Como o próprio nome sugere, a principal função é a inibição da atividade da enzima. Quanto ao mecanismo de ação, os inibidores da MAO permitem o aumento da concentração de neurotransmissores na fenda sináptica, o que leva a um aumento da serotonina e noradrenalina. O aumento destes neurotransmissores pode ajudar no alívio dos sintomas da depressão.  Essas substâncias eram prescritas com certa frequência, até que, nos anos 70, foram retirados do mercado americano em função de casos de crises hipertensivas e hepatoxicidade (problemas no fígado).

imaos e cannabis

A depressão e patologias relacionadas ao humor são doenças que acometem pessoas por todo o mundo. Alguns transtornos psiquiátricos são resultantes de uma desregulação na síntese, liberação, receptação e transmissão desses neurotransmissores. A depressão, por exemplo, é causada por uma deficiência de serotonina e endorfina no sistema nervoso central. Apesar de não serem os antidepressivos mais populares atualmente, os iMAOS são uma alternativa que se destaca em quadros de doenças neurodegenerativas, principalmente a Doença de Parkinson. Nesses casos, os neurotransmissores também são diminuídos, e o aumento de dopamina pode desacelerar o progresso da doença.

Os IMAOs podem ser classificados em MAO-A ou MAO-B, que indicam a seletividade da sua atuação. O MAO-A metaboliza a dopamina, norepinefrina e serotonina, enquanto MAO-B metaboliza principalmente a dopamina. Enquanto o primeiro é a principal envolvido no tratamento da depressão, o MAO-B tem mais relevante no tratamento da doença de Parkinson. 

Independente da indicação, é crucial estar atento ao que já foi registrado em relação as interações medicamentosas e alimentares entre iMAOS e outras substâncias. Por mais inofensivo que possa parecer, alguns alimentos podem causar danos irreparáveis quando consumidos durante o tratamento com iMAOs.

– Interações alimentares e iMAOs

Uma das principais desvantagens dos iMAOS são os efeitos em detrimento de interações alimentares. Como são derivados de tiraminas, se uma pessoa consome alimentos ricos em tiramina, esta substância não será degradada e seus níveis de concentração na corrente sanguínea ficam altos. Outro fator importante é que como a tiramina induz liberação de noradrenalina, a quantidade deste neurotransmissor também aumenta. A noradrenalina é um neurotransmissor que tem um papel fundamental na regulação da pressão arterial, e induz a contração endotelial dos vasos sanguíneos. Por esse motivo, o uso de iMAOS sem acompanhamento nutricional pode desencadear quadros graves de hipertensão e problemas no fígado, e em casos mais graves, podem até ser fatais.

– Interações medicamentosas e IMAO

O uso conjunto de iMAO com outros fármacos pode ocasionar a Síndrome Serotoninérgica, que é uma condição potencialmente fatal, resultante do aumento de serotonina no sistema nervoso central, que ocorre principalmente em função da combinação entre dois medicamentos seretoninérgicos.

Principais IMAOs:

  • Iproniazida
  • Isocarboxazida
  • Tranilcipromina
  • Befloxatona
  • Clorgilina
  • Brofaromina
  • Moclobemida
  • Fenelzina
  • Selegilina
  • Toloxatona

Qual a relação do IMAO com a cannabis?

Um ponto muito importante quando se fala de cannabis, é que nem sempre podemos generalizar a suas características. A maconha é uma planta composta por inúmeras substâncias e as concentrações desses componentes não são facilmente pré-definidas. A quantidade de canabinoides e terpenos depende de uma série de fatores e pode variar muito de planta para planta.  Por conta disso, uma planta com maior concentração de CBD pode causar um efeito mais depressor, enquanto maiores níveis de THC podem proporcionar efeitos mais psicodélicos.  No caso da interação de medicamentos com níveis mais altos de CBD, não são raros casos de sonolência, problema gastrointestinal e fadiga.

Além disso, outros fatores como contexto de uso, doses e características particulares de cada indivíduo devem ser levadas em consideração antes de fazermos projeções sobre as interações medicamentosas entre si. No caso de um uso concomitante, a principal preocupação é a metabolização das substâncias. Os medicamentos e os canabinoides da planta costumam ser metabolizados pelas mesmas moléculas, o que pode “sobrecarregar” o organismo ou até proporcionar um efeito mais potente e negativo.

No entanto, a maconha não corta o efeito do antidepressivo ou de outros medicamentos. O que exige cautela é o uso conjunto entre algumas medicações e a cannabis, principalmente antipsicóticos e anticonvulsivos.

É inegável que o proibicionismo interfere na informação e gera muito mais agravantes. Aqui no Brasil, é muito difícil saber de fato o que estamos consumindo quando se trata de cannabis. Então, ainda é mais complicado prever os desdobramentos entre os usos conjuntos.

Os compostos da cannabis podem atuar como antidepressivo?

A cannabis possui inúmeras substâncias terapêuticas em sua composição. Esses compostos possuem propriedades ansiolíticas e antidepressivas que vêm comprovando sua eficácia no tratamento de quadros de depressão e ansiedade. Estudos com animais e humanos apontam que o canabidiol é uma substância que aumenta a disponibilidade de dopamina e serotonina, e desempenha um papel benéfico na regulação do humor.

Várias são as vantagens do tratamento com derivados da cannabis. Primeiramente, as diversas classes de medicamentos convencionais para o tratamento da depressão e outros distúrbios geralmente requerem várias semanas ou meses para começar a aliviar os sintomas. Além disso, quando comparado com medicamentos à base de cannabis, os convencionais podem promover efeitos colaterais bastante incômodos, o que não costuma ser relatado por pacientes que fazem o uso de cannabis medicinal. Diante disso, os derivados da cannabis tem se mostrado uma alternativa eficaz no combate a esses sintomas.

Isso não significa que você deva usar, por exemplo, um iMAO e um medicamento a base de cannabis. Lembre-se que é muito importante consultar um médico e se informar sobre possíveis doses ou interações medicamentosas. O ideal é compartilhar as queixas e quais substâncias você faz o uso, para que o profissional possa avaliar quais os cuidados que devem ser tomados. Portanto, sempre busque a ajuda de profissionais que você tenha abertura e se sinta à vontade, faz toda a diferença!

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