A cannabis é uma planta que atravessou as fronteiras entre o uso medicinal e recreativo e muitas evidências científicas foram sendo levantadas ao longo de milênios para compreender os efeitos no corpo humano. O sistema nervoso central (SNC) é ainda um enigma para a medicina, quando relacionada à cannabis. Isso porque existem diversos tipos de maconha e o estudo do cérebro é complexo e desafiador.
Ainda que seja difícil entender a relação entre a cannabis e o SNC, muitas evidências já mostram os potenciais benefícios para a saúde, mesmo que também existam os pontos críticos debatidos pelos pesquisadores. Vamos entender melhor como funciona essa sinergia e quais são os reais efeitos do canabidiol (CBD) para o cérebro.
O que é sistema nervoso central?

O Sistema Nervoso Central é um dos principais sistemas do corpo humano, sendo responsável por processar as informações que o corpo recebe do ambiente e controlar as respostas a essas informações. Ele é composto pelo cérebro e pela medula espinhal, estruturas essenciais para o funcionamento adequado do organismo.
O SNC é como um grande centro de comando que recebe sinais de diferentes partes do corpo e também envia comandos para diversas funções corporais. Isso inclui desde movimentos simples, como mexer os dedos, até processos mais complexos, como o pensamento e a memória.
Funções do SNC
Como um grande centro de comando, ele exerce algumas funções primordiais no nosso organismo, que incluem:
- Controle Motor: Coordena os movimentos voluntários, como caminhar, escrever ou levantar a mão. Ele também controla os movimentos involuntários, como os batimentos cardíacos e a respiração.
- Percepção Sensorial: Processa informações recebidas dos nossos sentidos (visão, audição, tato, olfato e paladar). Por exemplo, ao tocar uma superfície quente, o SNC envia um sinal para que você retire a mão rapidamente.
- Processamento Cognitivo: O cérebro, parte do SNC, é o centro da nossa capacidade de pensar, aprender, memorizar e tomar decisões. Isso envolve funções como raciocínio, resolução de problemas, linguagem e emoções.
- Homeostase: Ajuda a manter o equilíbrio interno do corpo, regulando temperatura, pressão arterial e níveis de açúcar no sangue, entre outros.
- Controle Endócrino: Através da glândula pituitária, o SNC também regula a liberação de hormônios que afetam diversas funções do corpo, como o crescimento, o metabolismo e o humor.
Como deu para perceber, o sistema nervoso central é crucial para o funcionamento do corpo humano e para o cumprimento de todas as funções vitais. Quando ele é afetado, o corpo responde externamente, podendo impactar na fala, na locomoção e também na tomada de decisões.
A cannabis é uma planta usada de forma medicinal por muitas pessoas. Segundo o Anuário da Cannabis Medicinal 2024, produzido pela Kaya, existem +672 mil pacientes que usam cannabis no Brasil. Além dessa forma, o uso recreativo também é muito popular ao redor do mundo. É importante compreender os efeitos que o uso contínuo pode acarretar para a saúde, assim como os possíveis benefícios – e vamos falar sobre isso agora.
Como o canabidiol age no sistema nervoso central?
O CBD é um dos compostos conhecidos como canabinoides, encontrados na planta de cannabis. Ao contrário do tetrahidrocanabinol (THC), o principal composto psicoativo da cannabis, o CBD não causa efeitos alucinógenos. Por esse motivo, o CBD tem sido amplamente estudado por seu potencial terapêutico, especialmente no que diz respeito ao sistema nervoso central.
O CBD interage com o sistema endocanabinoide (SEC), uma rede de receptores e moléculas no nosso corpo que regula uma série de processos fisiológicos, como humor, apetite, dor e sono. O SEC é composto por dois tipos principais de receptores: CB1 e CB2. Esses receptores estão distribuídos por várias partes do corpo, incluindo o cérebro, a medula espinhal e outros órgãos.
Relação do sistema endocanabinoide e CBD no corpo
Quando o CBD entra no corpo, ele se liga a diferentes receptores no sistema endocanabinoide. Embora o CBD tenha uma afinidade mais baixa para os receptores CB1 e CB2 do que o THC, ele ainda pode afetá-los de várias maneiras, modulando suas funções. Além disso, o CBD pode influenciar a produção de endocanabinoides naturais (moléculas produzidas pelo corpo), como a anandamida, que está envolvida na regulação do prazer e da felicidade.
O CBD também pode interagir com outros sistemas e receptores do corpo, como os receptores de serotonina e vaniloides. A serotonina, por exemplo, é um neurotransmissor relacionado ao bem-estar e à regulação do humor. Ao influenciar a serotonina, o CBD pode ajudar a reduzir a ansiedade e melhorar o humor.
Efeitos do CBD no sistema nervoso central
Diversos estudos científicos apontam que o CBD pode ter uma série de efeitos benéficos no sistema nervoso central. Vamos analisar alguns dos principais efeitos documentados nas pesquisas:
1. Redução da ansiedade e estresse
Um dos efeitos mais estudados do CBD é sua capacidade de reduzir a ansiedade. Estudos demonstram que o CBD pode influenciar a atividade de áreas do cérebro responsáveis pelo controle do medo e da ansiedade, como a amígdala e o hipocampo. Um estudo realizado em 2011, publicado no Journal of Psychopharmacology, mostrou que o CBD pode reduzir a ansiedade em indivíduos com transtorno de ansiedade social, ajudando-os a se sentirem mais confortáveis em situações sociais.
Acredita-se que o CBD age sobre os receptores de serotonina, que são responsáveis pela regulação do humor e do comportamento emocional. A ativação desses receptores pode promover uma sensação de calma e bem-estar, o que ajuda a reduzir a ansiedade.
2. Alívio da dor
O CBD também tem sido amplamente estudado como um analgésico, especialmente para dores neuropáticas. Isso ocorre porque o CBD interage com os receptores do sistema endocanabinoide que estão envolvidos na percepção da dor. Estudos mostram que o CBD pode ajudar a modular a resposta do cérebro à dor, tornando-o uma opção promissora para o tratamento de condições como fibromialgia, neuropatia diabética e esclerose múltipla.
Além disso, o CBD possui propriedades anti-inflamatórias que podem ajudar a reduzir a inflamação no sistema nervoso central, o que pode, por sua vez, aliviar a dor crônica.
3. Melhora na qualidade do sono
O sono é um dos aspectos mais afetados pelo sistema nervoso central, e muitos distúrbios do sono estão relacionados a desequilíbrios no funcionamento do SNC. O CBD tem mostrado efeitos positivos na melhoria da qualidade do sono.
Pesquisas indicam que o CBD pode ajudar a regular o ciclo sono-vigília, promovendo um sono mais profundo e reparador.
4. Neuroproteção
Outro benefício potencial é sua capacidade de proteger as células nervosas contra danos e degeneração. O CBD demonstrou propriedades neuroprotetoras em estudos com animais e pesquisas clínicas iniciais. Ele pode ajudar a reduzir os danos neuronais causados por doenças neurodegenerativas, como Alzheimer e Parkinson.
O CBD pode atuar como um antioxidante, protegendo as células do cérebro contra o estresse oxidativo, que é um dos principais responsáveis pelo envelhecimento e pela degeneração das células nervosas. Além disso, ele pode reduzir a inflamação no cérebro, que também é um fator chave em muitas doenças neurodegenerativas.
5. Tratamento para epilepsia e convulsões
O uso do CBD no tratamento de epilepsia tem gerado grande interesse nas últimas décadas. Em 2018, a FDA aprovou o uso de um medicamento à base de CBD, chamado Epidiolex, para tratar duas formas raras de epilepsia, a síndrome de Lennox-Gastaut e a síndrome de Dravet.
Pesquisas mostram que o CBD pode ajudar a reduzir a frequência e a gravidade das convulsões em indivíduos com essas condições, possivelmente devido ao seu efeito calmante sobre o cérebro e à modulação dos receptores endocanabinoides.
O que as pesquisas científicas apontam sobre o sistema nervoso central e CBD?
A Brazilian Journal of Psychiatry publicou um artigo sobre os efeitos cerebrais da maconha, utilizando a neuroimagem como um instrumento para investigar as alterações neuroanatômicas e neurofuncionais.
Uma revisão da literatura entre 1966 e 2004 usou técnicas de neuroimagem para investigar os impactos do uso de cannabis. Os estudos estruturais mostram resultados conflitantes, com poucos indícios de atrofia cerebral, mas sugerem que usuários de longo prazo, especialmente iniciantes na adolescência, podem ter redução na substância cinzenta. Os estudos funcionais indicam aumento da atividade neural em áreas relacionadas à intoxicação e alterações de humor, e diminuição da atividade em regiões responsáveis pela cognição. A questão sobre efeitos neurotóxicos residuais após o uso prolongado de cannabis permanece em aberto, necessitando de mais pesquisas combinando neuroimagem e avaliação cognitiva.
Outro estudo publicado pela Brazilian Journal of Development o uso do canabidiol e seus efeitos no tratamento de doenças do sistema nervoso. Este estudo revisa o perfil terapêutico do CBD e sua aplicação no tratamento de doenças do sistema nervoso.
A pesquisa sugere que os canabinoides, incluindo o CBD, possuem propriedades terapêuticas, especialmente em distúrbios do sistema nervoso, através da regulação do sistema endocanabinoide. Os resultados indicam que o CBD pode reduzir sintomas de ansiedade, convulsões e parkinsonismo, mas mais estudos com maiores amostras são necessários para esclarecer seus mecanismos de ação.
Como deu para notar, existem estudos que apontam os efeitos benéficos, mas também os que mostram os efeitos colaterais. Por esse motivo, a pesquisa científica continua a ser aplicada para entender ainda mais a relação da cannabis no sistema nervoso central.
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