Transtorno da Personalidade Borderline

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Caracterizado por sintomas como instabilidade e impulsividade, o transtorno da personalidade borderline acomete um desafio para quem o enfrenta.

O transtorno da Personalidade Borderline ou Transtorno da Personalidade Limítrofe está incluído na categoria de distúrbios que afetam a personalidade e trazem sofrimento ou prejuízo significativo para a vida do indivíduo. Nesse texto, vamos compreender o que são os transtornos de personalidade, quais os diferenciais do Borderline e como essa condição se manifesta.

Entenda o que são traços de personalidade

Desde o início da história da humanidade, as pessoas tentam identificar como seus temperamentos, padrões de comportamento e características a definem. Depois de muitos estudos, o conceito de traços de personalidade são características duradouras que descrevem a maneira como uma pessoa pensa, sente e se comporta. Eles são estáveis ao longo do tempo e em várias situações, e ajudam a determinar como uma pessoa responde às diferentes circunstâncias da vida. Esses traços são frequentemente observados como padrões de comportamento, emoções e pensamentos que são típicos de uma pessoa e que distinguem essa pessoa de outras.

Exemplos de traços de personalidade incluem extroversão, amabilidade, conscienciosidade, neuroticismo e abertura para experiências. Esses traços podem influenciar a forma como uma pessoa se relaciona com os outros, como lida com o estresse, como toma decisões e muitos outros aspectos de sua vida.

O que são transtornos da personalidade?

Transtornos de personalidade surgem quando traços individuais se tornam excessivamente proeminentes, inflexíveis e mal-adaptativas, interferindo no desempenho profissional e/ou nas relações interpessoais. Essas disfunções sociais podem acarretar um sofrimento significativo tanto para aqueles que possuem os transtornos quanto para aqueles ao seu redor.

Transtorno de borderline

Para os afetados por esses transtornos (ao contrário de muitos outros que buscam aconselhamento), é o sofrimento resultante das consequências de seus comportamentos socialmente inadequados que geralmente os motiva a procurar tratamento, em vez de qualquer desconforto relacionado aos seus próprios pensamentos e emoções. Portanto, é fundamental que os profissionais de saúde auxiliem os pacientes a reconhecer que suas características de personalidade são a origem do problema.

Geralmente, os transtornos de personalidade começam a se manifestar no final da adolescência ou início da idade adulta, embora em alguns casos os sinais possam surgir mais cedo, durante a infância. Os traços e sintomas variam amplamente em sua persistência ao longo do tempo, sendo que muitos tendem a diminuir com o passar dos anos.

O Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais, 5ª Edição, Texto Revisado (DSM-5) identifica 10 tipos de transtornos de personalidade, embora seja comum que os pacientes que se encaixam nos critérios de um tipo também atendam aos critérios de mais de um.

Transtorno da personalidade borderline


É uma condição psicológica e psiquiátrica que influencia o pensamento, o sentimento e as relações interpessoais de uma pessoa. Caracteriza-se por uma instabilidade emocional marcante, relacionamentos tumultuados, impulsividade e uma autoimagem instável, manifestando-se através de padrões comportamentais, emocionais e interpessoais que causam disfunções significativas na vida do indivíduo.

O Manual Diagnóstico e Estatístico dos Transtornos Mentais, em sua edição mais atualizada, traduz o diagnóstico de Borderline na ocorrência de pelo menos cinco (≥ 5) dos seguintes critérios:

  1. Esforços desesperados para evitar abandono real ou imaginado. (Sem incluir comportamento suicida ou de automutilação) 
  2. Um padrão de relacionamentos interpessoais instáveis e intensos caracterizado pela alternância entre extremos de idealização e desvalorização. 
  3. Perturbação da identidade é a instabilidade acentuada e persistente da auto-imagem ou da percepção de si mesmo. 
  4. Impulsividade em pelo menos duas áreas potencialmente autodestrutivas (p. ex., gastos, sexo, abuso de substância, direção irresponsável, compulsão alimentar). (Não incluir comportamento suicida ou de automutilação) 
  5. Recorrência de comportamento, gestos ou ameaças suicidas ou de comportamento automutilante. 
  6. Instabilidade afetiva devida a uma acentuada reatividade de humor (p. ex., disforia episódica, irritabilidade ou ansiedade intensa com duração geralmente de poucas horas e apenas raramente de mais de alguns dias). 
  7. Sentimentos crônicos de vazio. 
  8. Raiva intensa e inapropriada ou dificuldade em controlá-la (p. ex., mostras frequentes de irritação, raiva constante, brigas físicas recorrentes). 
  9. Ideação paranoide transitória associada a estresse ou sintomas dissociativos intensos. 

Causas do transtorno da personalidade borderline 

As causas do Transtorno de Personalidade Borderline não são completamente compreendidas e geralmente são consideradas multifatoriais, envolvendo uma combinação de fatores genéticos, biológicos, ambientais e psicossociais. Algumas das possíveis causas e fatores de risco associados ao desenvolvimento do Transtorno da Personalidade Borderline incluem:

  • Fatores Genéticos: Estudos sugerem que existe uma predisposição genética para o Transtorno da Personalidade Borderline, pois há uma maior incidência do transtorno em famílias com histórico de transtornos de personalidade ou outros problemas de saúde mental.
Causas do transtorno de borderline
  • Fatores Biológicos: Alterações neurobiológicas, incluindo desequilíbrios químicos no cérebro, podem desempenhar um papel no desenvolvimento do Transtorno da Personalidade Borderline. Pesquisas sugerem que certas regiões do cérebro associadas ao processamento emocional podem ser afetadas em pessoas com Transtorno da Personalidade Borderline.
  • Experiências Traumáticas: Traumas na infância, como abuso físico, sexual ou emocional, negligência, separação dos pais ou outras experiências traumáticas, estão frequentemente associados ao desenvolvimento do Transtorno da Personalidade Borderline. Essas experiências podem levar a dificuldades no desenvolvimento de habilidades de regulação emocional e interpessoal.
  • Fatores Ambientais e Culturais: Ambientes familiares disfuncionais, instabilidade nos relacionamentos, falta de apoio emocional, modelos parentais inadequados e outros fatores ambientais podem contribuir para o desenvolvimento do Transtorno da Personalidade Borderline. Além disso, fatores culturais que enfatizam a invalidação emocional ou promovem estigmas em torno da expressão emocional também podem desempenhar um papel.
  • Vulnerabilidades de Personalidade: Certos traços de personalidade, como sensibilidade extrema às emoções, tendência a reagir de forma intensa a situações estressantes e dificuldade em regular as emoções, podem aumentar a vulnerabilidade de uma pessoa ao desenvolvimento do Transtorno da Personalidade Borderline.

É importante notar que o Transtorno da Personalidade Borderline geralmente surge de uma interação complexa entre esses diferentes fatores de risco, e não há uma única causa definitiva para o transtorno. O tratamento geralmente envolve uma abordagem multidisciplinar que inclui terapia psicológica, medicamentos (quando apropriado) e apoio social para ajudar a pessoa a lidar com os sintomas e melhorar sua qualidade de vida.

Como é o tratamento para o transtorno da personalidade borderline?

A terapia é uma parte fundamental do tratamento da condição. A Terapia Dialética Comportamental (DBT) é a abordagem mais recomendada para quem possui esse diagnóstico. A DBT combina estratégias de mudança comportamental com técnicas de aceitação e regulação emocional.

Além da terapia, a medicação pode ser prescrita para tratar sintomas específicos associados ao TPB. Embora não haja uma medicação específica para o TPB, certos medicamentos podem ser úteis no tratamento de sintomas como depressão, ansiedade, instabilidade de humor e impulsividade. Antidepressivos, estabilizadores de humor e medicamentos para ansiedade são algumas das opções que podem ser consideradas, sempre sob a orientação e supervisão de um profissional de saúde mental.

A combinação de medicação e terapia é frequentemente considerada a abordagem mais eficaz no tratamento do TPB. Enquanto a medicação pode ajudar a aliviar sintomas agudos e proporcionar estabilidade emocional, a terapia oferece um espaço seguro para explorar questões emocionais profundas, aprender habilidades de enfrentamento e desenvolver estratégias para lidar com os desafios do dia a dia. Além disso, a terapia pode promover a autoconsciência, a resiliência emocional e o crescimento pessoal, aspectos fundamentais para a recuperação a longo prazo.

Relação da cannabis com o transtorno da personalidade borderline

Ainda é cedo para de fato comprovar os efeitos da cannabis no manejo desses sintomas. A planta enfrenta preconceito e estigma que limitaram seu avanço nos estudos científicos por décadas e acabaram atrasando as evidências sobre seu potencial. No entanto, é crescente o interesse nos compostos da cannabis no tratamento do TPB, e há evidências preliminares que os derivados são uma alternativa promissora.

Borderline e cannabis

Devido ao reconhecido potencial ansiolítico do canabidiol e de outros derivados, é esperado que os componentes sejam capazes de colaborar na redução da impulsividade, um dos principais sintomas do transtorno. A partir dessa redução, é possível contribuir com a regulação emocional desses pacientes.

A homeostase é um processo promovido diretamente pelo sistema endocanabinoide presente no corpo humano. Esse sistema é composto por um conjunto de receptores endocanabinóides, estruturas que interagem diretamente com os componentes da cannabis e proporcionam a regulação e o reequilíbrio de uma série de funções.

Dessa forma, as evidências do uso medicinal da cannabis no âmbito da saúde mental estão se tornando cada vez mais amplas, e os derivados da planta podem oferecer uma alternativa mais natural e com menos efeitos colaterais no cenário da psiquiatria.

Espera-se que a ciência continue desenvolvendo novos estudos que comprovem a eficácia e a segurança dos compostos da cannabis, para que os pacientes sejam capazes de se beneficiar dessa abordagem.

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