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Anvisa publica relatório sobre cultivo de Cannabis medicinal. Mas ainda não respondeu à principal pergunta do setor. 

Foto de Maria Riscala

Maria Riscala

Tempo de leitura: 3 min

Publicado em

  • julho 20, 2026

A Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) publicou nesta semana o aguardado Relatório de Sistematização do Chamamento Público nº 23, que reuniu estudos científicos sobre o cultivo de Cannabis para fins medicinais e farmacêuticos. 

À primeira vista, a notícia pode dar a impressão de que a Agência finalmente apresentou uma proposta para regulamentar o cultivo no Brasil. 

Mas não foi isso que aconteceu. 

Na prática, o documento funciona como uma prestação de contas do próprio chamamento público: ele mostra quais pesquisas foram recebidas, quem participou da iniciativa, quais instituições enviaram contribuições e quais temas foram abordados pelos pesquisadores. 

Ou seja, o relatório não traz conclusões regulatórias da Anvisa, não define como será o cultivo no país e tampouco apresenta uma minuta de regulamentação. 

O documento pode ser consultado na íntegra no portal oficial da Anvisa: 

👉 Relatório do Chamamento Público sobre Cultivo de Cannabis 

O que a Anvisa publicou? 

O chamamento público foi lançado em novembro de 2025 com o objetivo de reunir evidências científicas capazes de subsidiar futuras decisões regulatórias sobre o cultivo de Cannabis medicinal. 

Segundo o relatório, foram recebidos: 

  • 47 trabalhos científicos; 
  • 139 pesquisadores; 
  • 41 instituições brasileiras e internacionais. 

Após a análise dos critérios do edital, 44 estudos passaram a integrar a sistematização publicada pela Agência. 

As contribuições vieram de universidades brasileiras, Fiocruz, Ministério da Saúde, associações de pacientes, centros de pesquisa e instituições da Espanha, Alemanha, Canadá e Estados Unidos. 

O que esses estudos abordam? 

O material recebido é bastante diverso. 

Há pesquisas sobre: 

  • genética da Cannabis; 
  • concentração de canabinoides e terpenos; 
  • métodos laboratoriais para quantificação de THC e CBD; 
  • boas práticas agrícolas; 
  • rastreabilidade; 
  • impactos climáticos; 
  • regulamentação internacional; 
  • judicialização; 
  • aspectos econômicos; 
  • ensaios clínicos envolvendo dor crônica, Parkinson, fibromialgia, TEA e outras condições. 

Segundo a própria Anvisa, os temas mais recorrentes foram: 

  • concentração de canabinoides e sua relação com os efeitos farmacológicos; 
  • aspectos jurídicos e socioeconômicos relacionados à regulamentação. 

O que não está no relatório? 

Esse talvez seja o ponto mais importante. 

Apesar de reunir dezenas de estudos científicos, o documento não informa quais conclusões a Anvisa tirou dessas evidências. 

Também não responde perguntas que hoje interessam diretamente ao mercado, como: 

  • qual será o modelo definitivo de cultivo; 
  • quem poderá cultivar; 
  • quais serão os critérios técnicos; 
  • quais limites de THC deverão ser adotados; 
  • quando uma regulamentação efetivamente entrará em vigor. 

Em outras palavras, a Agência publicou o material recebido, mas ainda não publicou sua posição sobre esse material. 

Ainda não há mudanças nas regras 

Do ponto de vista regulatório, nada muda com a divulgação desse relatório. 

As normas que regulam a Cannabis medicinal no Brasil continuam sendo as já vigentes. 

Se você quiser entender como funciona o cenário regulatório atual, vale conferir também nosso artigo sobre as RDCs de cannabis: o acesso ao canabidiol na Anvisa, que explica como funciona o marco regulatório brasileiro após a publicação da RDC 1.015/2026. 

Da mesma forma, para entender quais produtos atualmente possuem autorização sanitária da Anvisa, recomendamos a leitura de Você sabe identificar um produto de cannabis regulamentado pela Anvisa?.  

O cultivo continua sendo o principal gargalo 

A publicação do relatório acontece poucos meses depois de outra decisão importante da Agência: a autorização para exportação de produtos derivados de Cannabis. 

Na época, aqui na Kaya Mind discutimos justamente uma contradição que permanece atual: como o Brasil pretende exportar Cannabis medicinal sem possuir uma cadeia nacional de cultivo plenamente consolidada? 

Esse debate continua válido e foi tema do artigo Como o Brasil vai exportar a cannabis que ainda não produz?, publicado recentemente em nosso blog. 

O novo relatório não responde essa pergunta. 

Ele apenas confirma que existe uma ampla produção científica sobre o tema — nacional e internacional — que poderá servir de base para futuras decisões regulatórias. 

O que esperar agora? 

O relatório representa um passo importante em termos de transparência institucional. 

Pela primeira vez, a Anvisa tornou pública a relação das pesquisas consideradas no processo de discussão sobre o cultivo medicinal, permitindo que pesquisadores, empresas e sociedade conheçam quais evidências chegaram à Agência. 

No entanto, o mercado continua aguardando a etapa realmente decisiva: a manifestação técnica da própria Anvisa sobre essas contribuições e a apresentação de uma proposta regulatória concreta. 

Até que isso aconteça, o relatório deve ser visto como aquilo que ele efetivamente é: um inventário das contribuições científicas recebidas, e não uma definição sobre como será o cultivo de Cannabis medicinal no Brasil. 

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